OBRA DA PROVIDÊNCIA ESTÁ ATENTA ÀS CARÊNCIAS DA COMUNIDADE

PARA MEMÓRIA FUTURA:
Entrevista publicada no jornal Solidariedade em 2005

Eduardo Arvins
O voluntariado molda a nossa forma 
de ser e de estar na vida

"O voluntariado molda a nossa forma de ser e de estar na vida", sublinhou Eduardo Arvins, presidente da direcção da Obra da Providência da Gafanha da Nazaré, uma IPSS que está atenta às carências da comunidade, há mais de meio século. As fundadoras, Maria da Luz Rocha e Rosa Bela Vieira, que deram os primeiros passos para a criação desta instituição em 1953, deixaram há dois meses a sua liderança, legando a quem as substituiu, como herança fundamental, o espírito de serviço a quem mais precisa.
Em entrevista ao SOLIDARIEDADE, o novo presidente da direcção da Obra da Providência fez questão de realçar que "os carismas das fundadoras" sempre o marcaram, por serem pessoas que se deram à comunidade, merecendo, por isso, "o carinho de toda a gente". "O seu testemunho é algo que queremos cultivar e perpetuar", adiantou.
Considerando que o convite que lhe foi dirigido para presidir à instituição social mais antiga da Gafanha da Nazaré o surpreendeu, não deixou de reconhecer que está a viver um desafio que não ocupava os seus horizontes, mas também acredita que "as coisas não acontecem por acaso". Nessa linha, admite que esse desafio foi motivo para reflectir sobre a importância do voluntariado e da solidariedade na sociedade.
Agora, e depois de uns tempos de conhecimento da Obra da Providência, mormente dos seus objectivos e ideário, dos contactos com as profissionais, algumas das quais estão ao serviço da instituição há cerca de 30 anos, e da adaptação às realidades quotidianas de todos os sectores, Eduardo Arvins entende que, quem quer servir os que mais precisam, tem de "estar sempre a olhar à sua volta, para descobrir as necessidades da comunidade".
A Obra da Providência nasceu, fundamentalmente, para prestar apoio a mulheres e raparigas em perigo moral, trabalho que desenvolveu, em ambiente familiar, até à revolução dos cravos, em 1974. Nessa altura, os serviços estatais fizeram saber à direcção da instituição que "os acontecimentos políticos confirmam que entramos noutra era em que a proliferação de pequenas iniciativas sem viabilidade vai terminar para dar lugar às acções programadas para a maior rentabilidade social", conforme regista a história da Obra.
Porque estas orientações das políticas sociais saídas do 25 de Abril não se coadunavam com os princípios orientadores da instituição, as fundadoras não esmoreceram, iniciando-se, de imediato, a procura de respostas a necessidades emergentes na freguesia. A partir daí, as mulheres assumiram mais empregos fora de casa, pelo que os seus filhos passaram a precisar de quem deles cuidasse. Como consequência disso, um Centro Infantil entrou em funcionamento logo em Outubro de 1975.
Eduardo Arvins e a sua equipa estão agora empenhados em descobrir novas necessidades dentro da área em que a Obra da Providência se insere e que é, primeiramente, a Gafanha da Nazaré, embora possa alargar-se a outras zonas, já que é tutelada pela Diocese de Aveiro. As valência actuais (Creche, Jardim-de-Infância, ATL e Centro de Convívio Sénior) vão continuar, "porque a realidade é a mesma no sector da infância", sendo justo sublinhar que "estão todas a dar respostas de muita qualidade", adiantou-nos o presidente da direcção.
Há, no entanto, uma valência mais recente, o Centro de Convívio Sénior, que vai ser mais dinamizado. A esperança de vida vai aumentando, "o que é muito bom", mas também é sabido que se torna urgente ajudar "os idosos a viverem com mais qualidade". Assim, a direcção quer que as pessoas, "depois da sua reforma, não esmoreçam, mas se abram a novos horizontes, convivendo umas com as outras e enfrentando novos desafios". No Centro, "há idosas que vão descobrindo capacidades pessoais, enquanto desenvolvem tarefas que nunca tinham experimentado nas suas vidas", disse ao SOLIDARIEDADE Eduardo Arvins.
Como os espaços ocupados pelo Centro de Convívio Sénior já não são suficientes, a instituição está à espera da cedência de um terreno anexo à sede da instituição pela Câmara Municipal de Ílhavo, já prometido, para aí se construírem instalações condignas, que proporcionem acções mais eficazes e mais dinâmicas, com e para gente menos jovem.
O presidente da Obra da Providência garantiu-nos, ainda, que se torna premente implementar o voluntariado na instituição, embora reconheça que o povo português é por natureza solidário. "Se olharmos à nossa volta, notaremos que há imensas oportunidades para muitas outras pessoas trabalharem como voluntárias; o serviço social é um campo onde ninguém fica de fora, porque há lugar para todos", disse.

Duas vidas ao serviço dos que mais precisam


Rosa Bela e Maria da Luz Rocha
Rosa Bela Vieira e Maria da Luz Rocha Maria da Luz Rocha e Rosa Bela Vieira, vicentinas desde 1952, são exemplo de testemunho cristão, na forma como se dão aos que mais precisam. Na Gafanha da Nazaré e arredores, não há quem não admire o seu labor diário na ajuda aos mais pobres, na procura de soluções para problemas familiares, no auxílio a doentes, no apoio a marginalizados. 
Ainda hoje, com a idade e alguns incómodos de saúde a dificultarem-lhes a acção, estas duas MULHERES (Com letras maiúsculas, como se vê) não deixam de visitar quem precisa das suas palavras amigas e encorajadoras, dos seus conselhos e conhecimentos oportunos e das suas sugestões, para que se descubram as melhores respostas aos problemas encontrados.
Inspiradas pelo espírito vicentino, que abraçaram como poucos, em 1953 iniciaram na Gafanha da Nazaré a ajuda a raparigas em perigo moral, a mães solteiras marginalizadas pelas famílias e a mulheres marcadas pelo estigma da prostituição. Nasce assim uma instituição que procura, em ambiente acolhedor, ser família de quem não tinha família, recebendo mulheres e seus filhos pequenos. 
Devidamente acompanhas pelas fundadoras e por muitos outros voluntários, as mulheres e raparigas eram envolvidas por todo um espírito de família, de trabalho, de convívio e de amor. Dali saíam casadas, com empregos e com coragem para enfrentarem a vida, todas elas ficando gratas à instituição que lhes deu a mão.
Mesmo depois de a Obra da Providência se voltar para outras carências da comunidade, Maria da Luz Rocha e Rosa Bela Vieira nunca deixaram de olhar para as raparigas e mulheres em perigo moral. Mas se já não as podem acolher e ajudar no dia-a-dia, por falta de espaços e de meios, ainda sabem muito bem encaminhá-las para outras instituições mais vocacionadas para este serviço social.

Fernando Martins

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